quinta-feira, 18 de novembro de 2010

esboço para uma história da filosofia crítica


Renè e sua crítica da dúvida cartesiana:
Descartes costuma, comumente, ser lembrado pela sua postura cética no momento inaugural de sua filosofia. Esse ceticismo é, sobretudo, uma iniciativa natural do seu modo de pensar e abriga, no cerne de sua orientação, uma postura muito comum, e de certa forma original e embrionária, da consciência de sua época: a postura crítica. Descartes foi o filósofo que acolheu em suas reflexões os desdobramentos de sua época, a saber, a Revolução Científica. O movimento iniciado com os cálculos de Copérnico deu luz a uma nova Era do ocidente e apontou ao homem europeu o destino do horizonte vislumbrado pelo Renascimento. Neste litigante período histórico, não foi apenas o homem que perdeu seu lugar no mundo, mas sim o próprio mundo que deslocou seu eixo e ganhou novos fundamentos no pensamento científico racional em oposição ao pensamento teológico cristão. Agora esse mundo, antes fechado num sistema metafísico de revelações harmónicas herdadas desde a Antiguidade, havia sido aberto ao questionamento matemático e experimental do empirismo e racionalismo europeu. As dúvidas cartesianas são um reflexo dessa nova atitude perante a afirmação do mundo. Pois o filosofo faz uma volta a si mesmo e, dentro de si, procurar inverter as ciências admitidas até então e tentar reconstruí-las, oferecendo as um fundamento seguro, fundamento este que na sua filosofia ficou bem conhecida como o ego cartesiano. Mas na busca natural por um fundamento seguro ele não só põem em dúvida a realidade a sua volta, como também investiga a possibilidade de um campo seguro para a construção de uma ciência universal. É justamente neste “por em dúvida” que se efetiva sua atitude crítica. Duvidar de algo é por em crítica o seu conjunto de validades. Essa postura tende a ser reformadora na filosofia pois sugere um novo modelo de metafísica que se evidenciará no ideal cartesiano de scientia universalis. Era o berço de nascimento do homem moderno.

Kant e a sua crítica da razão :
Em pouco mais de um século o mundo europeu vivenciou e abrigou um surto de inovações que se estendiam desde a esfera do conhecimento científico até ao âmbito das revoluções sociais e econômicas que implicaram, na Inglaterra, uma mudança da estrutura política inaugurando, assim, a vida política no mundo burguês. Passando pela publicação de “As Revoluções das Órbitas Celestes” de Copérnico até a “Principia Mathematica” de Newton ou pelas Revolução Puritana até Revolução Gloriosa, novos ideais começavam a movimentar a consciência do homem moderno, ideais esses que, tal como conhecemos hoje, ficaram marcados no movimento tido como Iluminismo. Na Alemanha, então inda um arquipélago político de principados, o Iluminismo, ou “Aufklarung”, enfrentava os problemas da metafísica iniciada em Descartes e refutada por Hume; isto é, assim como Descartes havia fundamentado todo pensamento moderno numa atitude racionalista, o espírito científico de Bacon de Verula havia instigado os pensadores John Locke e David Hume a refundamentarem o homem moderno num pensamento empirista. Era o “teatro de infindáveis disputas” entre os empiristas e racionalistas. No âmbito de um desenvolvimento da disciplina metafísica na filosofia, a missão do filósofo que há de suceder a esse embate, a filosofia de Kant, vai consistir em dar pleno remate e terminação a essa disputa da consciência moderna. É neste entrave que ascende a filosofia crítica de Immanuel Kant. A atitude crítica kantiana vai se constituir no que o próprio filósofo chamou de “tribunal da razão pura”; isto é, Kant visa apurar as questões levantadas pelos debates entre racionalistas e empiristas e para isso ele aborda o termo “critica” no seu significado grego: discernir, julgar. Dessa forma, o ideal da crítica na filosofia transcendental não é de condenar e acusar a razão humana, mas sim uma determinação ou distinção das suas fontes com referência aos seus âmbitos de aplicação e validade para poder, assim, avaliar o âmbito de validade da própria metafísica. É na originalidade desse projeto que Kant inaugura a sua “revolução copérnica” e desloca de eixo a matriz do conhecimento, antes situada no objeto, para o sujeito do conhecimento. Assim, pois, Kant encerrava um período da história da filosofia iniciada em Descartes. Era o fim da idade moderna.

Schopenhauer e sua crítica do teísmo ocidental:
A filosofia kantiana acabou influenciando todo cenário filosófico e se ramificando nas doutrinas de Fitch, Schelling, Hegel e finalmente Schopenhauer. Este último configurou sua filosofia de uma forma bem diferente da de seu rival, Hegel. Na esteira da revolução copérnica, a filosofia crítica, ao ver de Schopenhauer, era uma filosofia de crise, que inalgurava na filosofia, depois da Antiguidade e Renascimento, uma nova época do pensamento europeu: “Todos sabiam que acontecera algo de grandioso, mas ninguém sabia exatamente o quê.” A filosofia de Schopenhauer era tida pelo próprio como a obra do pensamento capaz de encerrar a transição entre moderno e o pôs moderno. Pois Kant havia levado aos chãos não apenas o mundo medieval, mas, principalmente todo o conjunto de valores idéias que se julgava pertinente situar no cerne do pensamento tomista/agostiniano. O idealismo representava o foco central da crítica de schopenhauer pois ele significava, não só uma superação do realismo e do materialismo, mas também uma refundamentação epistemológica e uma crítica aos antiguíssimos preconceitos do teismo europeu. Tal projeto preconizado por Kant e estendido por Schopenhauer atendia pelo título de "crítica do teismo ocidental".

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